Dor… Chegar… Partir…

by

dor

 

A vida – em seu curso natural – vez ou outra traz-nos surpresas; somos assaltados por situações que querem nos fazer acreditar, querem nos convencer que é uma instalação definitiva.

Neste momento é que descobrimos sentimentos que nem sabíamos que existiam, o fato de não tê-los vivido, não tê-los experimentado, faz com que não se infiltrem em nosso vocabulário de emoção, não sabemos do que chamá-los, como tratá-los. Mas eles existem, tanto que a gente quer colocar um nome, achar um termo que identifique, que dê sentido ou ache co-participes do mesmo sentir de modo a não sermos os únicos a ter isto doendo no coração.

Há “coisas” que existem, não foram ainda descobertas e por isso não têm nome ou sentido para nós. E recebem nomes segundo a visão particular, à própria pele, e quando identificamos uma dor com o mesmo nome, ainda assim é diferente, pois conseguimos distingui-la pelo peso com que nos é apresentada. A dor pode ter o mesmo nome, mas ninguém sabe o quanto que me pesa, o quanto que custa a mim carregá-la e senti-la.

Sérgio Pimenta, antes de morrer devido ao câncer que se instalara, fez uma canção: “Só quem sofreu, pode avaliar quem sofreu, pode se identificar, pode ter o mesmo sentir…”. A experiência, o experimentar, possuir um portfólio de sentidos e emoções, faz com que haja um novo vocabulário, os matizes de cores mudam, há a extrapolação de significados, basta lembrar que a língua esquimó tem cerca de quarenta palavras para “branco” e umas quinze para “neve”; o mundo deles é totalmente branco, cujos tons são devidamente denominados; e a neve é o fenômeno constante, eles conhecem todas as variações e as expressam de modo que todos que vivem por lá identificam, enquanto que para nós, habitantes dos trópicos, é quase uma abstração, branco é branco e neve é neve, para eles houve uma expansão do espectro de cores, ou melhor, da cor branca.

Em meio a novos sentimentos e novos sentidos, o mais difícil é considerá-los simplesmente como um imparcial e neutro novo sentimento, só isto! Não é bom e nem é mau, somente é novo; o que eu faço com eles, o jeito que eu os percebo, os manipulo e direciono é que fará a diferença, enquanto isto é só um novo sentimento. Em meio a dor, em meio a tormenta, desafio é descansar, é ter a sensação de que   chegamos em casa, de que dobramos as velas da nossa embarcação…

O termo chegar veio de uma linguagem náutica, usava-se plicare vela, isto é, dobrar as velas da nau quanto a embarcação chega ao porto,  ‘aproximar-se do litoral’. Para tornar mais fluente e mais rápida, dizia-se apenas plicare, daí que veio “chegar” e “llegar”. Descansar é dobrar as velas, é ver que o litoral, a nossa casa está perto, é chegar e experimentar o porto seguro.

Engraçado que na Dácia, usava-se o mesmo “plicare” só que dizia-se plicare tentoria ou plicare sarcinam, “dobrar a tenda” ou “a mochila”, indicando a hora de “partir”, não de chegar! Esse uso era próprio da linguagem militar, usada para levantar acampamento e partir, só que da mesma forma, por contração da frase, para deixar mais fluente e mais rápida a conversa, o povo da Dácia usava também somente plicare na acepção geral de “dobrar”, tanto que em romeno pleca significa tanto “partir” como “dobrar”.

Plicare na linguagem náutica é chegar e em romeno é partir, a mesma palavra com sentidos totalmente opostos.

Acabamos sendo confrontados a descansar mais no sentido romeno, de levantar acampamento, de se fazer algo a respeito, do que no sentido de chegar, de dobrar as velas, de vivenciar o porto seguro, parece que funciona mais se fizermos alguma coisa a respeito do que somente descansar.

E é um misto, um desafio filosófico mesmo; o paradoxo de ao mesmo tempo que havemos de descansar, de chegar ao litoral, de dobrar as velas; descansar também é levantar acampamento, é dobrar as tendas, é deixar para trás aquela instalação de guerra, é mudar de posição; é um partir da situação anterior de vigília e chegar na esfera do “aquitetai-vos”.

Nem todos os dias são iguais, nem todas as noites são iguais…

Existe uma solidão latente em nós que se manifesta no travesseiro; naquele momento um pouco antes de dormir, no momento em que os pensamentos ainda conseguem estruturarem-se e apresentar conclusões, apresentar casos e causos, apresentar você mesmo como um ser só e suas dores como de fato são: dores únicas, tal como você, querendo iniciar um processo de autopiedade, de autocomiseração, em que o papel de sofredor solitário é muito atraente.

Não há como negar que as dores de cada um possui o tom, a cor, a densidade de cada um, realmente são únicas. Não há como negar que pode haver nomes idênticos às mesmas dores, mas não há dores e sentir idênticos a outros.

Chegar ao litoral para descansar pode ficar mais fácil quando se vê ao longe uma fogueira na praia; o cheiro almiscarado das madeiras litorâneas invadindo o ar com a fumaça, o mesmo aroma de quando as calçadas litorâneas são varridas e as folhas são queimadas depois.

Chegar ao litoral para descansar pode ficar mais fácil quando – mesmo em plena noite de trabalho em vão – você percebe alguém junto à fogueira, um vulto, alguém familiar, alguém por quem você tem motivo para voltar.

Chegar ao litoral para descansar pode ficar mais fácil quando você descobre que não é só você que conhece os seus mares, quando este alguém prova que basta jogar a rede no lugar que Ele quer para que tudo dê certo.

Chegar ao litoral para descansar pode ficar mais fácil quando – independente do produto de seu trabalho – há peixe assado na praia, feito pelas mesmas mãos; mãos que transformaram água em vinho, que tocaram em olhos que eram nulos e cegos e os fizeram voltar a ver, que expulsaram demônios, que tocaram em uma menininha morta e a fez voltar da morte, que abençoaram crianças e que partiram o pão dizendo que era corpo e levantaram o cálice dizendo que era seu sangue, mãos que tiveram os pulsos furados e transpassados por pregos na cruz e que agora alimentam a fogueira e preparam o melhor peixe para os que chegam de uma noite de dores, de perdas e de redes vazias.

Chegar ao litoral para descansar pode ficar mais fácil quando você descobre que suas dores não podem mais serem chamadas de suas, pois são Deles também, e contrariando toda a pessoalidade e exclusiva propriedade privada do sentir e do perceber dores, Ele conhece todas as suas aflições, pois as viveu também.

Homem de dores que sabe o que é sofrer; conhece todas as neves, todos os brancos, todas as dores.

Dobrou as tendas e levantou acampamento mesmo sendo Deus e quis chegar ao nosso litoral de humanidade por amor a nós.

Não há mais momentos solitários em travesseiros, pois Ele está em nosso litoral esperando que dobremos as velas e cheguemos, cheguemos e nos aquietemos, sabendo que Ele é Deus…

Senhor, eu creio, ajuda-me em minha falta de fé, ainda mais em momentos que as dores querem ser mais presentes do que a Sua própria presença; em que a benção de tratamentos parece ser a geradora das dores que serão curadas, momentos em que nunca foi tão pesado dobrar as velas

Quero chegar e descansar, abandonar aquele acampamento de guerra onde as armas eram tão somente minhas…

 

Dinho – Alexandre Melatto
Estação ABC
dinho@caminhoabc.com.br

 

Tags: , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.